Obs: Cuidado, pois essa crítica pode conter pequenos spoilers da trama. Todavia, acredito que na altura do campeonato, todos tenham visto essa obra.

A Força-Tarefa X, mais conhecida como Esquadrão Suicida, foi criada originalmente por Robert Kanigher e Ross Andru e apareceram pela primeira vez em The Brave and the Bold #25. Porém, o time foi reimaginado por John Ostrander em Legends #3. A versão moderna é a mais conhecida pelos fãs e atualmente o público, graças à trágica adaptação que estreou em 2016 com direção de David Ayer.

Por incrível que pareça, Esquadrão Suicida era o filme que eu estava com mais “hype” para conferir nos cinemas. Nem mesmo Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016) e Capitão América: Guerra Civil (2016) tiravam minha ansiedade de assistir o grupo composto pelos piores vilões da Terra. Já antecipava meus pensamentos, e apostava que seria o melhor do DC Filmes. Aqueles trailers estavam muito bem feitos, as músicas me conquistaram, a ação era desenfreada e o Coringa de Jared Leto, apesar de trazer muita desconfiança, prometia. Oras, o ator ganhou o Oscar! Tinha como dar errado?

Tinha. E deu muito errado, “Herbie do passado”.

Na época que a Warner Bros. estava para por em prática o segundo trabalho de Zack Snyder para seu universo cinematográfico (mais precisamente, 2014), o cineasta David Ayer surgiu com a proposta de um filme focado no grupo de vilões que são obrigados pelo governo a cumprir missões praticamente suicidas. Uma boa ideia, mas no tempo errado. O mais sensato seria fazê-lo após o universo estar estabelecido…e mais, dizem fontes que Ayer demorou míseras 6 semanas para escrever o roteiro de sua película. As únicas explicações mais lógicas que encontro para explicar o sucesso dessa péssima adaptação são: O elenco, as músicas, e o marketing. Marketing melhor, aliás, do que o recente Liga da Justiça (2017) e até Batman vs Superman (2016).

Os eventos de O Homem de Aço (2013) e Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016) ajudaram Amanda Waller (Viola Davis) no plano de criar um grupo formado pelos piores vilões do universo DC (na verdade, os piores vilões do Batman). Para que cumpram seus deveres, foi implantado uma nanobomba em seus pescoços que explodirá ou não dependendo de um aperto de botão da chefona e do líder Rick Flag (Joel Kinnaman). Quando June Moone (Cara Delevingne), a namorada de Flag, perde o controle de sua entidade conhecida como Magia, cabe ao Esquadrão Suicida impedi-la de causar mais estragos em Midway City. E junto disso, o Coringa (Jared Leto) está muito preocupado em recuperar a Arlequina. Um roteiro extremamente simples do início ao fim, mas seria ótimo se fosse somente isso…

2 anos antes, a animação Batman: Ataque ao Arkham foi lançada servindo como uma espécie de teste para ver como o público e os fãs da franquia de jogos Arkham reagiriam ao Esquadrão. E o resultado foi muito bom. Só bastou uma pequena força de vontade de David Ayer para que o sonho se tornasse realidade, ou catástrofe. A luta do Homem-Morcego contra o Homem de Aço foi muito criticada pelo número excessivo de cortes, e esse grande erro infelizmente fez parte de Esquadrão Suicida. Falam alguns que o tom da história, no primeiro trailer lançado na Comic-Con, era completamente diferente da ação com humor que foi apresentada nos trailers seguintes. Apesar disso, duvido que o “original” seria distante do que foi apresentado. E ter a Magia como a vilã principal, sinto dizer, não funciona tão bem sendo transportado para esse longa. Os quadrinhos do time nos anos 80 envolviam muitas histórias “sem pé nem cabeça”, mas dificilmente funcionariam se fossem realizadas em um filme. Uma história de infiltração, mais pé no chão, seria fácil e ideal.

O título pode ser facilmente mudado para “Pistoleiro, Amandinha, Arlequina, e seus amigos”, já que metade do grupo é mal aproveitado no roteiro. Crocodilo possui uma excelente maquiagem (venceu até o Oscar) e está super bem caracterizado, mas é deixado de lado, tem poucos minutos de brilho e foi um dos personagens que mais sofreu com cenas cortadas. Katana tem pouquíssimo destaque e surge praticamente do nada na trama, cumprindo uma espécie de função nova: Easter Egg coadjuvante. Capitão Bumerangue é extremamente detestável e não nos importamos em nenhum momento com ele, mas isso é bom. A maioria sempre sonha em ver George Harkness levando uma bala na cabeça, e Jai Courtney está de parabéns pela interpretação (nada surpreendente ou excelente, só bom para um personagem como esse). Flag sofre buylling de Amanda e serve como o animal de estimação da mulher. O coitado nem é chamado para atirar na Arlequina em um momento importante da trama, e precisa ser salvo duas vezes pelos criminosos principais da história por ser incompetente demais em se manter vivo. Margot Robbie…eu daria um beijo nela (quem não daria?) por conseguir se salvar desse navio prestes a afundar. Sua Arlequina é doida de pedra, faz piadas em momentos errados e morre loucamente de amor pelo “pudinzinho”.

Falando na pífia participação do Senhor C, que horror. Ayer, você simplesmente não entendeu o Coringa e criou uma tremenda descaracterização ambulante. O Palhaço do Crime que eu conheço não daria risadas de cabra, não dependeria de capangas, não teria mil e umas tatuagens desnecessárias, não usaria colares de ouro e um casaco ostentação, não teria uma Lamborghini luxuosa para humilhar os pobretões de Gotham City e, acima de tudo, NÃO AMARIA A ARLEQUINA!…nisso, não boto a culpa nele. Desde o início, a ideia era mostrar uma relação abusiva assim como nos quadrinhos. Mas alguém estava sem paciência para lidar com feminazis nojentas e decidiu suavizar a relação. É quase um fato que as “fan-arts” feitas antes de revelarem o visual definitivo eram muito superiores ao que foi mostrado. Não estava pedindo algo 100% idêntico, mas sim algo que honrasse a essência do personagem. Gostando ou não gostando dos filmes de Zack Snyder, temos que admitir que no visual ele arrebenta. Sua versão para o vilão com certeza traria elementos de Frank Miller ou Alan Moore.

Acompanhando Leto, temos a Cara Delevingne em o que parece ser sua atuação mais lamentável vivendo uma entidade sobrenatural que sabe dançar como ninguém. Só faltou tocar Dance a Little Bit Closer” enquanto ela fazia sua dança sensual. Ouço muitos dizendo que Will Smith era um dos poucos que prestava na pele do “frio” Floyd Lawton, mas eu digo que aquele atirador profissional é somente o Will Smith interpretando ele mesmo. O Pistoleiro que eu conheço só ama sua filha e nada mais no mundo. Enquanto no Esquadrão dos Novos 52, ele atirou na Arlequina para matar, nesse fatídico filme ele finge ter errado o tiro por ter virado o amiguinho da palhaça. Zoe Lawton, a filha do assassino, está presente e sua relação com o pai felizmente é bem mostrada. El Diablo tem mais destaque e profundidade do que o original, mesmo que seu destino tenha sido apressado e fraco. E o Amarra…sem muitos comentários. Ele só estava ali para servir de exemplo em uma morte já esperada pelos fãs.

Se formos parar para pensar, a culpada por ter que utilizar o Esquadrão em uma missão tremendamente estúpida é a própria Amanda. Se ela tivesse sido um pouco mais cuidadosa, June estaria tranquila e feliz da vida com Rick Flag (que estão em um relacionamento nem um pouco explorado e jogado na história). O terceiro ato é vergonhoso, e dá a entender que é só você juntar um grupinho qualquer de pessoas e comprar uma bomba que dá para vencer uma bruxa aparentemente super poderosa e inteligente de 5 ou 6 mil anos de idade. Magia deu tanto trabalho que nem a Liga da Justiça conseguiu vencê-la, mas na versão do DC Filmes soa mais como uma ex-dançarina patética que se acha uma deusa a ser respeitada falando em outra língua, transformando homens em monstros fracos e invocando lâminas de sua mão. Seu irmão, Incubus, tem um visual incrivelmente genérico acompanhado de um CGI porco e uma morte totalmente estranha. Como todos já sabem, o longa sofreu um processo de cortes de várias cenas, e isso pode ser sentido com forma brusca e até confusa nas cenas que passam.

A ação é pouco inspirada, e a trilha sonora fica muito de lado para se apoia em clássicos dos anos 70 e 80 (mais ou menos no mesmo estilo de Guardiões da Galáxia Vol. 1) que colam na sua cabeça. Não vejo nada de errado quanto a isso, e não penso que um grupo como esse deveria possuir uma trilha de arrepiar. Entretanto, são clássicos jogados em momentos não muito importantes e nos momentos mais “legais”, fazem falta. A curta participação do Barry Allen de Ezra Miller prendendo o Capitão Bumerangue em Central City e o Cavaleiro das Trevas de Ben Affleck prendendo o Pistoleiro, Arlequina e participando de uma cena-pós-créditos em uma conversa não tão amigável com Amanda ajudam para que o nível de péssima qualidade desse filme não chegue no 100%. Sobre o El Diablo ter afirmado que não iria “perder outra família”, eu não detesto com todas as minhas forças a afirmação. Para quem leu a fase dos Novos 52, sabe que o personagem é muito sentimental, religioso e “paz e amor”. Mas ignorando ele, não há coerência no restante do grupo também se considerar uma família tendo se conhecido em poucas horas. E isso acaba por ficar forçado demais, quando vemos que Flag acaba ganhando uma súbita mudança de personalidade e começa a tratar os criminosos que ele não suporta trabalhar como colegas. O pobre David, talvez, tenha ficado interessado em dirigir um filme do Quarteto Fantástico no passado, e como não teve a oportunidade, decidiu passar o espírito da primeira família da Marvel Comics para seu trabalho aqui criticado. É estranho ver um homem como ele, que não é nenhum Michael Bay da vida, ter entregado uma direção preguiçosa junto de um roteiro igualmente preguiçoso.

Como diria um conhecido meu, “ruindade pouca é bobagem”. Esquadrão Suicida fez um bom número de bilheteria e, admitindo ou não, sucesso entre o público. Como a Warner é a Warner, isso gerou coragem para eles anunciarem vários derivados desnecessários que poucos ou ninguém pediram. Relacionado ao Esquadrão, teremos Coringa e Arlequina, Sereias de Gotham e Pistoleiro (apesar deste ter sido provavelmente, e felizmente, cancelado). Sereias também ficará por conta de David Ayer. Parece que estão tentando concertar o horrível Coringa de Leto a todo o custo. Para que tantos filmes, se ele pode ser facilmente corrigido nas mãos do Matt Reeves em The Batman ou “rebootado” em Flashpoint? Esse estúdio gosta de complicar sua própria vida.

Fico mais decepcionado em lembrar do excelente Ataque ao Arkham e como sua história daria uma excelente adaptação, claro, com as devidas adaptações para se adequar ao universo cinematográfico da DC. Uma infiltração, vilões passando a perna nos outros e um Coringa em sua insanidade total causando o tumulto e atraindo a atenção do Batman? Simples, e perfeito. Mas nada é como nos queremos certas vezes, o resultado desse terceiro filme do UEDC é lidado por muitos como o pior até agora.

Esquadrão Suicida foi alvo até do próprio realizador, que chegou a admitir que o potencial não foi totalmente aproveitável e muitas coisas poderiam ter sido mudadas. No entanto, lixo pode ser reaproveitável. A Warner escolheu o diretor Gavin O’Connor e os roteiristas Adam Cozad e Zak Penn para lidar com a sequência, provavelmente programada para 2019. Os fãs da editora estão dando uma segunda chance para vocês. É só largarem a tesoura e serem inteligentes. Antes de concluir, preciso fazer uma confissão: Eu inicialmente gostei dessa droga, e não entendia porque o pessoal estava metendo tanto o pau nele. Mas certas pessoas começam a enxergar melhor as qualidades e os erros na segunda vez, e comigo foi assim. Ganhei o primeiro encadernado do time nos Novos 52, lia as edições do DC Rebirth por scan e finalmente “reassisti” a versão dos cinemas. Como até coisas ruins tem seu lado positivo, agradeço à Warner também, pois aprendi a controlar o meu hype quanto a filmes de super-heróis. E um rumo está se mostrando, mesmo que aos poucos, com a contratação de Walter Hamada e a boa qualidade de Mulher Maravilha (2017). Não entrarei em Liga da Justiça (2017), por ter gerado algumas pequenas polêmicas que não interessam tanto para o texto.

E sobre a enganosa versão estendida, o estúdio deve ter visto que lançar todas as cenas só iria piorar o show de horrores e decidiu deixa-lo picotado mesmo. Falo isso levando em conta a cena que o Coringa de Leto afirma ser “uma ideia”, alá V de Vingança. Foi para um bem maior…

Esquadrão Suicida (Suicide Squad) – EUA, 2016, cor, 123 minutos.

Direção: David Ayer. Roteiro: David Ayer. Música: Steven Price. Cinematografia: Roman Vasyanov. Edição: John Gilroy. Elenco: Will Smith, Jared Leto, Margot Robbie, Joel Kinnaman, Viola Davis, Jai Courtney, Jay Hernandez, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Ike Barinholtz, Scott Eastwood, Cara Delevingne, Karen Fukuhara, Adam Beach, Ben Affleck, Ezra Miller.

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Sobre o Autor

Amo filmes, histórias em quadrinhos, livros e, principalmente, Fuscas.